DO NATAL AOS REIS: Cantos da Galiza e Portugal

  • Catarina Moura: voz, percusións
  • César Prata: voz, guitarras, adufe
  • Ariel Ninas: voz, sanfona, harmónica

Convite especial: Segue-me à Capela!

“do Natal aos Reis. Cantos da Galiza e Portugal” é, un concerto temático sobre a tradición musical da Galiza e de Portugal. Tres músicos a tocar cancións propias das dúas beiras do Miño que comparten a mesma tradición nas festas de Nadal. Cancións de Noiteboa ou de Consoada, de Natal, Manueles, de Ano Vello ou de Aninovo, de Reis ou Xaneiras,… repertorio que popularmente se interpreta de casa en casa por un grupo de persoas que piden o aguinaldo. Mudanza de ciclo anual e solsticio de inverno, cantos ao Neno, aos Reis Magos e á Epifanía nun estilo moi particular e diferente doutros xéneros das nosas músicas populares. Son cancións que o pobo continuou a cantar!

O galego Ariel Ninas e os portugueses Catarina Moura e César Prata con diversos instrumentos (sanfona, guitarras, dulcimer, adufe, harmónica, percusións e fundamentalmente voz) cantan e tocan cancións tradicionais do tempo de Natal da Galiza e de Portugal.

Este proxecto foi gravado ao vivo pola RTP (Rádio Televisão Portuguesa) e emitido en todo Portugal a noite do 24 decembro de 2017.

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O Ciclo dos Doze Dias levado à cena num Teatro

por Domingos Morais,
IELT – FCSH da Universidade Nova de Lisboa

Ariel Ninas, Catarina Moura e César Prata lançam-se na construção de um espectáculo a partir das canções populares que na Galiza e Portugal humanizam a divindade, através do nascimento de uma criança, o menino Jesus, cuidada por pastores e camponeses, adorada por Reis do Oriente e perseguida pelos poderosos para quem a mensagem de libertação redentora dos malefícios do Mundo era e continua a ser ameaçadora.

De 25 de Dezembro a 5 de Janeiro contam-se os 12 dias que marcam o início das celebrações do regresso do Sol (no hemisfério Norte), garante de novas sementeiras e fartas colheitas, anunciadas pelas árvores de folhagem caduca em que novos rebentos são a prova do início de um novo ciclo.

Eram as Festas Saturnais celebradas no Império Romano e de que se encontram ainda traços nos presépios e autos pastoris, no cepo do Natal e em tantas outras manifestações populares, neste Ciclo do Natal aos Reis.

Michel Giacometti tipifica em Calendário das cerimónias e celebrações religiosas e índice sumário da música vocal e instrumental nelas integrada (1975) as manifestações presentes em Portugal (e na Galiza) e que viajaram até ao hemisfério Sul (Brasil) apesar de lá o Sol estar precisamente em contra-ciclo:

24/25 de Dezembro (Natal), Cantos ao Menino Jesus. Novenas do Menino. Loas. Canções de presépio. Música vocal/instrumental intercalada nos Autos Pastoris. 26 de Dezembro (Festa dos Rapazes) Colóquios e Loas (especialmente em Trás-os-Montes). 31 de Dezembro / 1 de Janeiro Cantos de Janeiras ou Janeiradas e de Ano-Bom (vocal/instrumental). 5/6 de Janeiro (Reis ou Epifania) Cantos de Reis (para pedir os reis). Reisadas ou Reiseiras com chacotas ou desgarradas elogiosas ou insultuosas (vocal/instrumental). Orações das almas (para as almas do Purgatório. Especialmente no Alentejo e Algarve).

Os versos cantados são reveladores de uma religiosidade popular próxima do sentir comum do povo. São tangedores de viola, de pandeiro e tamboril que reclamam as harpas e liras de oiro dos anjos do céu. E a preocupação de vestir o Menino, com sapatinhos novos, meinhas, calções, camisa, colete, casaco, lencinho, chapéu. E Maria à beira do rio, lavando os cueiros do bendito filho, que São José estendia. O Menino é beijado no pé, para rimar com São José, e na mão, para rimar com São João (Baptista). E o berço é de madeira (manjedoura) e palhas, “Em palhas deitado/ Em palhas aquecido”. O Menino tem “boquinha de marmelada” para rimar com “… a minha mãe não tem nada”, e “boquinha de requeijão” rima com “… a minha mãe não tem pão.”.

O Deus Menino tudo merece. Da contemplação deslumbrada por um postigo entreaberto, merecedor de uma cadeirinha de oiro, mas também de papa doce, sopinhas da panela e a mama da mãe (Maria), ausente no moinho enquanto o pai (José) ficou na cama.

As canções da Galiza remetem quase todas para o Ano Novo e Reis. A chegada a Belém e a busca de um abrigo para o parto situa o momento do nascimento nas Festinhas de Nadale, quando “… à meia noite em punto/ a Virgem parido havia/ tanta era su pobreça/ que un pano ela nom tinha”. Mas as Festas de Ano Novo e Reis têm muita dança, brincadeira e malícia, que “as forças pidem reparo,/ molho as gorxas e não de auga!/ Crouriço e longaniça/ unha de porco, fuzinho,/ ou de xamom duas tortilas/ com dous jarrinhos de vinho”. E das damas, nada escapa no dito brejeiro que antecede o aguinaldo (ofertas em género) num crescendo que vai do cabelo, passando pelos peitos, barriga e “… iso que ti tapas con o dianteiro,/ ten duas columnas/, palacio primeiro”.

Todas estas canções foram revestidas por arranjos instrumentais que de certo modo as transfiguram sem as descaracterizar. A sanfona é uma feliz opção que nos remete para as representações dos presépios populares esculpidos ou pintados. Todos os instrumentos utilizados criam uma moldura sonora em que melodia e textos são valorizados.

E que nada têm a ver com a lamechice do Natal dos Jingle Bells nos centros comerciais e das seitas religiosas que não perdem uma oportunidade para nos culpabilizar e transformar em pecadores contribuintes.

Tudo acontece num palco, com uma encenação sóbria e excelentes condições técnicas para que cada detalhe seja apreciado. É bom não esquecer que estamos num Teatro, num lugar aberto à mudança e à surpresa, (José Luís Porfírio, Jornal Expresso de 21/10/2019). E a partir desse acontecimento sermos despertos para conhecer o felizmente acessível acervo de memorias audiovisuais e documentais que permitiram este trabalho.

E talvez, se tudo correr pelo melhor, reencontrar o gosto da oralidade nas nossas comunidades, a começar pelas canções de embalar, verdadeiro alfobre da língua e cultura.